A ARTE DE NÃO DISCUTIR
“O silêncio pode ser mais sábio do que a opinião. Não é submissão. É discernimento. É perceber que nem toda batalha merece combatentes.”
A arte de não discutir não é uma demonstração de fraqueza. Pelo contrário, é uma escolha consciente de quem compreendeu que nem toda conversa precisa transformar-se numa batalha e que a paz vale mais do que a necessidade de vencer.
Conversar é mais difícil do que parece
Você sabe conversar?
Sabe manter o clima agradável, com risadas e aprendizados, ou se irrita facilmente com as contradições da mente dos outros? Consegue identificar e controlar as suas próprias incoerências, respostas impulsivas e questionamentos durante uma discussão? Você tem essa competência?
Pois bem,
A nobreza e a habilidade de saber conversar vão muito além da suposta boa educação que recebemos. Trata-se de uma habilidade mental esplendorosa, habilidade esta que ainda estamos a desenvolver.
No Brasil, por exemplo, a desonestidade é frequentemente romantizada. Lá, você aprende desde pequeno o que é o famoso “jeitinho brasileiro”. Ou seja, desde criança, é ensinado a relativizar a moral. Acontece que a honestidade não pode ser relativizada. Ou, pelo menos, não deveria.
Conversar é a arte de manter a harmonia mesmo quando é você quem perde o suposto debate. Mas eu ainda insisto em dizer que o assunto aqui é a arte de conversar. Portanto, debater, discutir, criar contendas, alimentar fofocas e provocar brigas nada têm a ver com uma boa cavaqueira.
Só mais uma vez: aceitar as opiniões alheias é uma habilidade mental. Essa habilidade é moldada ao longo da vida, e algumas pessoas precisam de mais ajuda e atenção do que outras. Sem contar que, por vezes, a própria sociedade trabalha contra a verdadeira boa educação.
Mas venha cá…
Qual é o seu nível de tolerância? E o seu grau de irritabilidade, a quantas anda? (risos)
É importante compreender que algumas mudanças são necessárias para que a nossa mente aprenda a silenciar, a não opinar sobre tudo e a esquivar-se de conversas vazias e ardilosas.
Fingir-se de desentendido também funciona, mas não opinar apenas para evitar uma discussão é uma atitude ainda mais importante. Às vezes, basta dizer que não sabe. Outras vezes, basta admitir que o outro pode ter razão.
Sim, diga que o outro tem razão e abandone a discussão.
Relembremos que ter “razão” é a nossa capacidade humana de raciocinar. Portanto, todos a temos. A lógica nada mais é do que a linha de pensamento que uma pessoa percorre até chegar ao objetivo que se propôs alcançar.
A necessidade de vencer
A maioria das discussões não acontece porque alguém procura a verdade. Acontece porque alguém procura vencer.
Observe uma conversa comum. Raramente as pessoas escutam para compreender. Elas escutam para responder. Enquanto o outro fala, a mente já prepara a réplica, procura defeitos no argumento alheio e organiza contra-ataques.
Poucos percebem que esse comportamento revela mais insegurança do que inteligência.
Quem está seguro de si não precisa vencer todas as conversas. Não precisa corrigir cada frase. Não precisa transformar divergências em batalhas morais.
A necessidade constante de ter razão costuma esconder um medo silencioso: o medo de estar errado.
Por isso, algumas pessoas discutem até quando concordam. O importante já não é o assunto. O importante é não ceder.
Mas a vida ensina que existem vitórias que custam caro demais. Há amizades destruídas por orgulho, famílias divididas por teimosia e relacionamentos desgastados por uma simples incapacidade de dizer:
— Talvez você tenha razão.
A paz não discute
A arte de não discutir exige treino. Não nasce da passividade, mas da capacidade de escolher onde vale a pena investir energia emocional.
Simples assim.
Quem pacifica é manso. Não serve para ser debatedor. É como dizia uma bruxa velha que conheci:
— A verdade não se senta em qualquer lugar, nem com qualquer um.
O pacificador entende que existem várias verdades e muitas realidades. Portanto, não se impõe e tampouco deseja ser destaque.
A paz não discute por causa das divergências na lógica do raciocínio de ninguém, porque cada pessoa possui a sua própria linha de pensamento.
Em respeito à verdade do outro, o pacificador abandona qualquer discussão, mesmo que todos pensem que ele seja um perdedor, um fracassado ou um bobo.
Esses adjetivos não o perturbam, porque ele e o debatedor sabem quem realmente venceu o suposto debate que deveria ter sido apenas uma conversa.
Existem belezas que quem gosta de discutir não percebe.
A mente de quem vive para debater torna-se incapaz de apreciar o belo, o invisível e até mesmo a delicadeza de um olhar. Está sempre pronta para ter razão.
Os debatedores de plantão gostam de constranger e, talvez por isso, não consigam colher sorrisos sinceros. A alegria que espalham costuma regressar em forma de olhares baixos e daqueles sorrisos amarelos que escondem desconforto.
Geralmente, essas pessoas acabam sendo evitadas e conhecidas como desagradáveis.
Você deve ter alguém assim na família.
Ou será que é você o desagradável da casa? (risos)
Valentia, gente: é saber lidar com as próprias emoções e ter coragem de conter o impulso mental de se defender o tempo todo.
Precisamos desenraivecer e sorrir com o corpo todo.
Não discutir é um estilo de vida.
A gente vai no passo a passo.
Tira-se um pouquinho de ignorância daqui e uma vontadezinha de retrucar acolá.
Jogam-se as vaidades pela janela e mandam-se as mentiras que viviam na ponta da língua, na ponta dos pés, porta afora.
O cheiro da discórdia
Quem não discute não perde tempo com provocações e sabe, mesmo de longe, reconhecer o cheiro daqueles que pregam a discórdia em nome do bem, da lógica, de Deus ou da religião.
Aqueles que gostam de debater cheiram a enxofre com notas de podridão nas narinas de quem não aprecia discussões.
Esses indivíduos não sabem construir vínculos através da alegria, do humor, da partilha ou da escuta.
Eles constroem presença através do confronto.
Quando entram numa sala, procuram o erro.
Quando encontram uma opinião, logo querem descobrir onde está a falha.
Quando alguém conta uma experiência, procuram uma objeção.
A sociedade alimenta esse ciclo vicioso da desonestidade intelectual. Isso porque a maioria das pessoas acredita que honestidade é dizer a verdade aos outros.
Contudo, é importante dizer que aquele que se propõe a não discutir nem sempre acredita estar certo.
Ele não é soberbo.
É apenas um colega de estrada.
E, para além disso tudinho, ter a habilidade de conversar com um sorriso na voz é o objetivo principal de quem realmente opta pela estrada da paz.
Talvez a arte de não discutir seja uma das formas mais sofisticadas de liberdade interior. Mas, por ora, é melhor deixarmos o Sol brilhar.
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Dan Dronacharya