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A MULHER QUE NÃO FAZ ESCÂNDALOS

O que será que ela faz para se controlar?

Quero ilustrar com calma — e com vida — a cena da mulher que ousou expressar um desconforto.

Pois bem,

Imagine-a: como uma mulher comum, dessas que seguram o mundo com uma mão e equilibram a própria ternura com a outra. Ela trabalha o dia todo, sem direito de se cansar, e vive com aquela inquietação mental que só quem amou de verdade conhece. Traumas psicológicos não fazem barulho: eles sussurram.

Mesmo com medo de ter certeza — ela senta-se à mesa, observa o marido e, com voz firme, porém vulnerável, diz que a colega do trabalho dele tem se insinuado. Não acusa, não esperneia, não dramatiza. Ela apenas tenta conversar. É o pedido de transparência que nasce do amor, não da posse.

E qual é a resposta dele?

A mesma que tantas mulheres ouvem: acusação invertida. Ele diz que isso é paranoia dela, que ela inventou tudo, ou pior — que ela só perguntou porque é ela quem trai.

E aqui reside o crime silencioso: não é traição, é destruição. É transformar o outro em suspeito de sua própria dor.

Mas repare: essa mulher não quebra copos e nem amassa as panelas.

Ela não vira a mesa e nem joga a sobremesa na parede para compor a cena dramática, digna de uma novela.

Não, não mesmo meus queridos

Ela apenas respira. Longa e profundamente.

E, nesse sopro nasce a ruptura. Porque ela não precisa fazer escândalo para que sua alma estremeça, na verdade — nesta hora ela já está para lá de estremecida. O barulho que importa não é externo; é o ruído alto que sai da rachadura de seu interior, aquela que só quem já se quebrantou por dentro sabe identificar.


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O silenciamento que mata lentamente

Com o tempo — e não é muito tempo, uma noite mal dormida é o suficiente — para que aquela mulher passe a se calar. Não, porque concorde com o marido e sua moral duvidosa, mas porque entende que ali, naquele território emocional, a fala virou risco.

Ela muda seus movimentos.

Torna-se mais observadora.

Vigia os flertes distantes, os galanteios disfarçados, os egos inflados que o marido alimenta como um adolescente tardio que acredita ser desejado por todas as luzes que piscam ao redor.

E a mulher?

A mulher vai murchando devagar.

Logo de início, começa a se achar feia, mal-amada, e inadequada para o homem que amou, inadequada para a vida que construiu, inadequada para o papel que pensava desempenhar tão bem.

Mas sua revolução não é teatral.

Não é cinematográfica. É real.

Ela não joga as roupas dele pela janela.

Não invade o trabalho da colega.

Não escreve mensagens impulsivas às três da manhã.

Ela apenas… se cuida.

E aos poucos começa a se amar.

E, amando-se, desapega não do homem — mas da ilusão que tinha de quer amada.

✧ Em que momento você começou a se calar para manter a paz?


A impermanência do amor

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Aquela mulher, agora mais madura, compreende que o “para sempre” não é uma promessa: é, só uma mentira bem colada, como já dizia a sabedoria popular. Ela entende que eternos são apenas os ciclos — não as pessoas. E que, no fundo, o amor só se mantém vivo se houver três ingredientes indispensáveis: verdade, liberdade e pacificidade.

O resto é contrato, papel timbrado, fotografia sorridente posada para atender as redes sociais.

Dostoiévski escreveu que “o sofrimento é a única causa da consciência”. Talvez seja por isso que tantas relações só se despertam quando já estão mortas. Amamos as idealizações, não pessoas. Criamos personagens para seduzir, porque a carência humana é tão infinita quanto o universo que ela tenta preencher.


O teatro e a verdade

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Nós, seres humanos, somos inconsequentes. Mentimos para ganhar uma discussão. Inventamos realidades para preservar o ego. Criamos versões melhoradas de nós mesmos para impressionar quem mal conhecemos e dormimos sozinhos. Sonhando com um amor verdadeiro, E, enquanto isso, o amor — esse ser frágil e exigente — não encontra espaço para nascer e muito menos para florescer.

O amor não é como a flor de lótus que nasce no lodo.

Ele é uma planta que precisa de verdade, luz e silêncio.

E a mulher? A mulher é aquela que já se sentou na beira do vulcão e viu a lava subindo — mas não correu. Se tornou musa.

E, quanto a mim? Ah! Eu casaria comigo um milhão de vezes (risos).

Mas, por ora, o melhor mesmo é tomarmos um café e discernirmos tudo isso com muita calma — antes que mais uma convicção cheia de incertezas vire tragédia doméstica ou tese existencial outra vez.


Dan Dronacharya

Há momentos em que explicar já não transforma a conversa. Uma reflexão sobre maturidade emocional, consciência nas relações humanas e o poder do silêncio.

Sou uma alma apaixonada pelo Universo e pela humanidade, estudante da expansão da consciência e uma professora de Yoga que encontrou o seu propósito na busca pelo equilíbrio e pela liberdade.

✧ Se esse texto encontrou algo em você, não ignora. Às vezes, reconhecer já é o começo.

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