Ilustração conceitual representando reflexão crítica, consciência individual e questionamento do grupo
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O grupo da Fazenda

Uma fábula satírica sobre poder e ignorância coletiva
Dan Dronacharya

Ingenuidade ou pretensão? Na grande Fazenda, o governo não apenas governa — ele ensina seu povo a ser cada vez mais burro.

Seria a ingenuidade, uma característica intrínseca de todos os tolos, ou só dos tolos desavisados? 
Era uma vez um lugar onde os bichos raciocinavam e até conseguia falar sobre Moral, Ética e Politica.
Pois, é … 
A noite caia sobre a grande Fazenda, e o velho carvalho se erguia à distância, totalmente imponente e solitário. A dona Coruja soltou um piado estridente, carregado de deboche que ecoou pelo campo de dentro de sua casa, no alto do tronco retorcido do imponente carvalho velho.
Logo em seguida, gargalha com um riso agudo e prolongado, semelhante ao de uma bruxa, reverberando na escuridão. Seus olhos brilhavam com astúcia, refletindo a luz da lua, enquanto as folhas do carvalho balançam suavemente ao som do vento noturno.

Na Fazenda dos Ignorantes, os bichos se entreolhavam, inquietos, perguntando-se o que tanto divertia a feiticeira. Diziam que todos os bichos ficaram agitados quando ouviram o piado alto, com ares de deboche, seguido das gargalhadas que a dona Coruja deu de dentro de sua casa no carvalho velho que era longe da Fazenda dos Ignorantes.

A dona Cocoricó, coitada! Quando ouviu a gargalhada da amiga, saiu em disparada estrada afora, batendo asa tal qual uma galinha choca — ou louca — foi correndo, toda apavorada, até chegar à casa da dona Coruja.
Ela subiu, escada acima e foi parada pela porta, a porta se abriu e ela caiu sala adentro, ajeitou as penas bagunçadas e toda foi logo perguntando à sábia Coruja o que a fazia rir tanto, ficou curiosa porque já que fazia tempos que ninguém gargalhava assim.
— Olá, dona Cocoricó! Então, a senhora não leu as notícias no portal dos Ignorantes do Bem? Uiii! Menina — continuou ela, toda rubra de tanto rir. Entre gargalhadas e palavras, disse: — Achei que já tinha esgotado minha cota de risadas com os comunistas de iPhone, mas me enganei. Não aguento essa pobreza de espírito. Gargalhei alto com a prosa do grupo da Fazenda, onde estou por conta da intervenção de uma matriarca.
— Ora, amiga. Tu sabes, tenho o sangue deles, mas não aceitei que a ignorância pudesse ser algo do bem e por isso eles me rejeitam. É, só olhar ao nosso redor… Vês alguma coruja além de mim por aqui?
Cocoricó balançou a cabeça negativamente.
— Não, né? Pois bem, tudo começou quando vi e resolvi entrar numa conversa do grupo dos ignorantes do Bem.
Um deles postou:
“Viva, enfim uma boa notícia! O Bola de Terra será julgado pelo tribunal de tortura da Fazenda.”
A notícia caiu como fogo no paiol: todos os ignorantes curtiram a postagem, menos a dona Xepa, que gosta de negativar tudo e saiu alertando os ignorantes sobre um possível falso alerta. Ela postou:
— Duvido que eles consigam prender o ladrão de joias. Não adianta ficar feliz; não existe justiça para essa gente.
Depois disso, dona Xepa postou a “palavra do senhor de todos os bichos”, como faz diariamente, e não falou mais nada.
— O cabaré pegou fogo mesmo quando resolvi copiar e colar um post que recebi de um outro pessoal mais desenvolvido, de fora da Fazenda. O meu post fazia menção à quadrilha que governa a grande Fazenda, e não aos Ignorantes do Bem. Postei porque achei interessante, porque não aceito essa visão enviesada imposta de forma ardilosamente carinhosa: ou aceita ou serás ninguém. Portanto, achei engraçada a resposta.
— Mas… ofendeste alguém dos implacáveis Ignorantes do Bem? — perguntou dona Cocoricó.
— Claro que não! Eu não ofendi ninguém. Veja lá… Repostei uma publicação que falava sobre os assaltantes, sequestradores e ladrões de banco da outra revolução, que hoje são os governantes da grande Fazenda. Isto é um fato, meu bem, certo? E, diante de fatos, não há argumentos, né, querida?
— Humm… — disse dona Cocoricó. — Não sei, não. Para quem não há argumentos?
— Ah, dona Coruja, a senhora não fez isso inocentemente, fez? Tu sabes bem que sensatez não é opção para eles. Eles cagam no tabuleiro e se dizem vitoriosos, lembras?
Dona Coruja ficou em silêncio, andando de um lado para o outro, mordiscando a haste dos seus grandes óculos; parecia digerir cada palavra dita pela sua única companheira naquele lugar.
— Oh, minha amiga, nós sabemos que carregas uma dor entre essas penas já acinzentadas pelo tempo; não acho que tenhas feito isso sem saber…
Cocoricó começou:
— Có-có-ri-có, có-có-ri-có, có-có-ri-có.
A Coruja interrompeu o cacarejo com um piado:
— Sim, amiga! Eu sei tudo de mim e alguma coisa deles. Nasci e cresci ali; posso parecer uma anomalia, mas sou um deles. Confesso que eles me surpreenderam. Não achei que já tivessem chegado aos ataques internos. Até um dia desses, eram unidos e se defendiam. Agora atacam os de dentro — os íntimos? A tola sou eu! Esqueço-me de que não sou um deles; esqueço que sangue pouco importa.
Dona Cocoricó interrompeu a amiga, afagou-lhe as longas penas, acalentou-a em suas pequenas asas e, entre piados e piadas, tentou acalmar a velha companheira:
— Eles são carrascos e estúpidos a ponto de ofenderem os seus sem saber nem o porquê. Incoerentemente, falam de amor, mas geram ódio por quem nunca os ofendeu.
A pergunta continua: seria a ingenuidade característica intrínseca do tolo, ou só dos tolos desavisados? Eu nunca vi isso nem nos piores infernos que visitei — e foram muitos.
— Meu ovo santo, quanta tolice — começou Cocoricó.
— Sim, veja bem, querida! O Galin Zé e o seu irmãozinho, Piriquita de Pinto, se ofenderam com meu post, acreditas?
— O Periquita de Pinto e seu mano mais velho, o Galin Zé, começaram os ataques falando de coisas que não sabem e afirmando verdades infundadas que foram incutidas na mente deles.
      Tolamente me ofenderam afirmando que minha fonte de estudos é o cantor que fez o post que eu partilhei, segundo ele, um artista falido, que posou pelado, usou drogas e tocava rock nacional. 
Até dá pena da criança tentando me atacar, tentando fazer ironias e incitando o “amor odioso” dos companheirinhos riquinhos mal-informados e mal-educados a atacar-me também. 
 Agora veja bem; 
“O cantor falido em questão era ídolo do pai dele 
O artista usou drogas?  Bem, se álcool e erva for droga  
O Galin também já usou. 
O cantor falido ainda tem nome, o Galin até onde sei, ninguém sabe quem é. 
O cantor posou pelado? Sim! Foi um sucesso, ou ainda é, né?O Galin viu e gostou. 
Ah, eu adoro isto! 
A revista é da minha época, “brow”, não da tua. E quer saber? Eu também gostei da revista, bebê (risos).  
Relaxa, Galin! Eu entendo a tua situação, agora tens que conformar com essas aberrações de saia de hoje em dia, né?  Ah, dona Cocorico, me ajuda né querida, amarrota-me, então, porque eu fico passada com essas baboseiras. 
Pensa, mulher! Ainda a que minha fonte fosse o tal cantor, qual a imoralidade em posar nu para gays e usar drogas? 
Veja bem onde chegamos querida e diga-me por onde anda o bom-senso deste povo?! 
Um pivete que vivia na esbornia até um dia desses, dá o furisco, bebe e faz mais sei lá o que, um sujeito que não sabe nem se é homem ou mulher, que já participou de tudo que é putaria, que é totalmente bancado pelo Papai, que só estudou pra cuidar da saúde dos bichos, um merdinha que não sabe da vida, vir querer ter lugar de fala quando o assunto é MORAL. 
Só rindo mesmo, né colega? … Fala sério! 
Calma amiga, falou dona Cocoricó 
Tá bem! Vamos rir enquanto se pode, porque comer, respeitar os outros e amar de verdade não são opções para os Ignorantes do bem.  
Aqui todos são iguais, mas tem alguns que são mais iguais do que os outros. 
Pois bem; 
O Bola de Terra se safou. A Coruja silenciou diante do espetáculo de amor com gosto de ódio no tribunal da Fazenda e não participou mais de nenhuma conversa do grupo. 
Já os irmãos Galin e Piriquita de Pinto? Continuam dentro do armário, trancados a sete chaves, talvez estejam discutindo se aquele cantor pelado estava bem iluminado na foto ou se deveria ter feito um bronze antes do ensaio de nudez.
 E, enquanto isso, do outro lado da Fazenda 
A quadrilha que governa a grande Fazenda segue perseguindo mães que escreveram contra o regime e libertando estupradores, assassinos e ladrões, parece-me que o povo continua escolhendo o Barrabás ao invés de Jesus.
O barrabás, digo os governantes da Fazenda seguem alimentando a sua nação de ignorantes com chicória e ovo. 
E, o povo? O povo come e espalha a receita dando razão a máxima que diz que “o povo tem o governo que merece.” 
Encerrou-se o assunto. Com eles não existe diálogo
NOTA: Este artigo foi inspirado no livro “A fazenda dos Bichos” do talentoso George Orwell. Portanto qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 
Com gratidão, 
Dan Dronacharya.