Ventos fortes durante tempestade Kristin em Portugal na madrugada
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KRISTIN, LEONARDO E MARTA

As tempestades que devastaram Portugal 

“A mente humana é incapaz de conceber qualquer coisa numa situação de medo.” 

Nada me fará esquecer os ventos uivantes na escuridão … 

O silêncio da madrugada do dia 28 de janeiro de 2026 foi interrompido pelo barulho da tempestade Kristin, ventos com velocidades acima dos 160 km/h, estalos horrorosos que a escuridão da noite não nos permitia saber o que realmente estava acontecendo. Essa incerteza alimentava o medo que já tomava conta das mentes e dos corações daqueles que escutaram os gritos da tempestade Kristin. 

Minha filha acordou assustada, sem saber de nada, e eu, sem respostas para lhe oferecer, passei aquela noite em claro sem conseguir pregar os olhos, a minha mente com medo. Logo pela manhã, saí vagarosamente para fora de casa — abri a porta e, calmamente, consegui convencer os meus olhos a verem o que tinha sobrado. Acho, sinceramente, que eu não queria ver o tamanho da destruição. 

Telhas ao chão, pinheiros, eucaliptos e árvores centenárias caídas com as raízes para cima, como se fossem folhas de papel cortadas a miúdo. 

Pinheirais inteiros tombados para os lados, como varetas espalhadas por uma criança no jardim de infância. Tal como se um monstro gigante os tivesse penteado. 

Por todos os lados, pessoas desoladas e tristes, mãos na cabeça, olhares distantes, crianças chorando e idosos sem oxigênio. 

Ficamos nove dias sem energia na minha zona; hoje, enquanto escrevo este artigo, sei que ainda são mais de 11.000 pessoas que continuam sem eletricidade em suas casas. A aldeia de Alcácer do Sal ficou totalmente alagada, o rio Mondego rompeu o dique e outros, como o Tejo, estiveram com seus níveis elevados. Ainda há muitos desalojados e alguns patrimônios importantes, como o museu mais antigo de Portugal, perdidos pelas cheias. 

Os corações aflitos agradecem a vida ao mesmo tempo que questionam o porquê de tanta destruição. 

Perguntas sem respostas, assistências que são oferecidas, mas que devem ser pagas: é o que o governo tem para oferecer para aqueles que, com as mãos calejadas, olham para as suas parreiras inundadas e seus animais mortos e, em meio a tudo isto, Portugal elege um novo presidente em uma eleição feita sem que todos pudessem participar. 

O primeiro-ministro anuncia as ajudas financeiras como se isso não fosse endividar aqueles que foram prejudicados pelas tempestades Kristin, Leonardo e Marta. 

Estes dias ouvi no rádio que um casal de uma aldeia próxima tinha desaparecido; hoje — enquanto ia para uma consulta — escutei que os encontraram mortos dentro do carro. Na explicação, a locutora da rádio narrava a triste história deste casal. 

Eles tinham ido para uma consulta em Coimbra e depois passaram na casa de um familiar, jantaram e saíram de regresso à vossa casa, mas nunca mais lá chegaram. Foram levados pelas cheias naquela região. Não tive como conter a minha mente, que logo questionou a morte tola e triste deste casal. A gente sempre acha que poderia ter evitado, mas quem é que pode com isso? 

Não esqueço os estalos daquela madrugada de 28 de janeiro de 2026, não esqueço os dias na escuridão, sem água potável e sem comunicação. Não dá para simplesmente não ver tudo isso, não tem como voltar atrás e tentar impedir o choro dos cidadãos desta nação. 

Portugal foi devastado por estas tempestades e não sei se há como remendar isto, não sei se as pessoas, assim como eu, apenas poderão lamentar os prejuízos. Como se reerguer? Como recuperar o que foi perdido, molhado ou derretido pelas águas? 

Os olhares continuaram perdidos, por mais que os corações continuem a ter fé. E, por falar em fé, houve quem dissesse que estas tempestades foram castigos divinos por conta da desobediência da mente, da dureza do coração e pelos estragos que o homem faz na natureza. Mas será que Deus, em sua infinita bondade, realmente pensaria de maneira tão perversa? Será que Ele é mesmo tão rude ou isto seria somente a mente má de quem diz conhecer aquele que não pode ser conhecido? Afirmar uma insensatez assim é o mesmo que dizer que ninguém aqui é digno de graça. A destruição que houve aqui nada tem a ver com o Divino, mas com desastres naturais. Portanto, agora não é hora de dar ouvidos a estas palavras irreverentes, está na hora de juntarmos os cacos, catarmos as telhas, limparmos as estradas e levantarmos a cabeça. 

Deveremos nos ater à reconstrução daquilo que conseguiremos reconstruir, levantaremos outra vez as paredes fortes, os celeiros mais resistentes e amarraremos mais forte os laços de amor eterno. 

Nós replantaremos outras árvores, muitas árvores, vários pinheiros, eucaliptos e carvalhos e semearemos novamente a esperança de que dias melhores virão — e eles virão, de certeza. 

Por ora, é melhor acendermos a lareira para aquecermos os nossos pés, mãos e corações. 

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Dan Dronacharya