ALMAS QUE SE TOCAM
“Almas se tocam… Às vezes com palavras.
Às vezes com uma mão no ombro.
Às vezes com um simples ‘bem haja’.
E, às vezes… obedecendo, cobrindo a cabeça com um xale sem saber o porquê.”
Você já foi capaz de tocar a alma de alguém? Alguém já tocou a sua? Relaxe, não precisa responder a esta provocação filosófica a mim, se não quiser. Mas acho que vale a reflexão.
Eu tenho pensado sobre isto. Um dia destes, enquanto passeava pela linda cidade de Tomar, não resisti e entrei num cemitério (um gosto estranho que tenho). Lá havia uma capela singela no fundo de um imenso corredor. Eu o percorri como quem tem pressa de chegar e, enquanto o percorria, avistei uma senhora de luto a zelar por um túmulo, que depois vi que era de seu marido. Abaixei minha cabeça em sinal de reverência àquela senhora de chapéu simples e olhar triste.
Entrei na capela e o silêncio de dentro acolheu-me do frio invernal que estava lá fora. Sentei-me no primeiro banco e, como não sei rezar, fiquei a contemplar o sagrado daquele lugar. Fechei os olhos para sentir ainda mais aquele calor estranho daquela capela tão simples e cativante que tanto me afagou. Pus-me a pensar sobre aquilo que me assola a mente, ou seja: as nossas relações. Senti que mais alguém entrou na igreja, mas não me virei; continuei com minha cabeça curvada e meus olhos fechados. Senti uma mão pesar nos meus ombros e logo deduzi que era coisa da minha cabeça, mas a mão pesou e, então, pensei que fosse algum maluco me perseguindo. Nada demais, é que as pessoas que foram vítimas de violência doméstica ou de assediadores se assustam muito facilmente mesmo — respirei fundo, levantei-me depressa e virei-me para responder, seja lá quem fosse que estivesse ali. Perdi o rebolado, por assim dizer; as palavras sumiram da minha boca e eu fiquei paralisada.
Era a senhorinha que estava a cuidar do túmulo lá fora…
O seu olhar triste agora estava terno e assim permaneceu — ela olhou no fundo dos meus olhos e disse que sentia muito a minha perda. Pediu-me um abraço, e eu abracei aquela pequenina senhora. No meio do abraço, ela me disse para que eu não me matasse nem me perdesse de mim mesma. Ela se despediu, como fazem os portugueses lindamente, com aquele “bem haja”. Agradeci e quis falar-lhe que eu não tinha perdido ninguém, que eu só estava pensando nos travões que temos de dar na língua para não magoar quem amamos, analisando a mim mesmo diante das questões que proponho, eu de fato, acho que quando estamos diante de quem amamos não devemos reconhecer esse laço antes que sua boca possa expressar um pensamento equivocado ou egoísta ou do contrário o que sentimos não seria amor, porque quem ama não machuca — quem ama assopra, zela das feridas e entende que tudo é impermanente, portanto, tudo o que existe hoje, amanhã pode não mais estar ali. Mas a senhora saiu da igreja tão apressadamente quanto eu tinha entrado. Por alguns instantes me senti presa num portal e por conta disso eu não conseguia esboçar reações.
Fiquei pensativa e saí para ver se a encontrava ali fora para tentar explicar que eu não estava de luto. Fui ao túmulo onde ela estava e vi que ela havia perdido recentemente o marido, suponho eu, porque a frase na lapide dizia: “marido amado e um pai exemplar, sentiremos a sua falta para sempre.” Mais uma vez, pensei que de fato ninguém que marca as nossas vidas. Fui caminhando pelo corredor comprido em direção ao portão do cemitério, pensando no acumulado de sonhos que ali morreram. Agradeci por estar ali; sou feliz assim, depois da minha auto revolução… Sai do cemitério com a fala presa e pude notar que as árvores Maple que cercavam o muro do resistiram ao último tempestade. E, sabe se lá quantas tantas ela já não teria resistido. E, no é que depois da curva avistei a senhora do túmulo do homem amado lá estava a senhorinha, mas desta vez com outras duas. Desta vez, ela estava um pouco mais serena, veio logo ao meu encontro e neste curto tempo de 2 minutos — o meu cérebro apressado já tinha me falado mais de um milhão de vezes neste curto intervalo de tempo que agora eu, enfim teria outra oportunidade de me explicar com relação a confusão do luto. Entretanto, ela veio ao meu encontro e disse-me logo que me que eu deveria cobrir a minha cabeça com meu xale, porque, para além de estar serenando, eu estava a chamar muita atenção com meus cabelos vermelhos e bagunçados. Eu perdi a oportunidade de falar sobre minha presença ali novamente e não sei por que eu a obedeci — cobri de imediato a minha cabeça e, já com os cabelos cobertos, sorri e acenei que sim e fui passear na beirada do rio da bela Tomar.
Até hoje não entendi. Sei que, mesmo sendo rebelde em quase tudo, desta vez, sem pestanejar — eu simplesmente acatei. Talvez tenha sido assim porque não era sobre submissão. Era sobre cuidado.
Por ora, acho melhor pentear os cabelos.
— Dan Dronacharya



