Dias Comuns
“A morte não é o oposto da vida. A vida não tem oposto. O oposto da morte é o nascimento. A vida é eterna.”
— Eckhart Tolle, Stillness Speaks (2003)
No livro a Cabana de Willian Paul Young – Deus aparece inicialmente sob a forma de uma mulher negra, corpulenta, de personalidade calorosa e maternal, que se apresenta como Papa.
Bem,
São 10 horas da manhã e o sol brilha normalmente lá fora, enquanto a dona aranha se deleita vagarosamente com o mosquito que está preso em sua teia. O vento não para de sussurrar só porque temos partidas sem volta ou mortes inexplicadas.
Amanhã, o Sol romperá mais uma vez a escuridão da noite, trazendo outro dia. O que fazer neste novo dia? Eu não posso simplesmente ficar dormindo, porque, quando amanhece, o sono desaparece, a mente destampa a falar e a sonolência passa, mesmo que o corpo esteja cansado e a alma em frangalhos. Então? Devo escutar música, sair, meditar ou o quê? Tudo se repete, como se o play não pudesse ser pausado, sendo que não há nada programado.
Modo zumbi ativado
Nada muda, tudo se repete: café da manhã, rotinas do dia, almoço, lanche, jantar, ver alguma coisa na internet e deitar-se na esperança de que amanhã o dia seja melhor. Outra vez, mas hoje será diferente e… Mal amanhece e lá estamos nós — metrôs lotados, cumprimentos forçados, amizades que só duram até à próxima estação e olhares que durariam uma eternidade.
Pihhh! Você chegou ao seu destino. Que destino? Posso apertar o botão para não ir? Não, né? Ok, pau na máquina, café frio, sorrisos falsos, perfumes baratos e alguma formalidade nos elevadores. Nenhuma surpresa! Assim são os dias comuns nas muitas cidades abarrotadas de gente vazia. Um ambiente onde todos enganam e são enganados — e está tudo bem, porque é assim que se vive por aqui. Entendi!? Um mundo virtual totalmente sem empatia no real. Muitas pessoas e poucas interações; fica no ar a questão permanente: por que há tanta superficialidade nos relacionamentos?
A rotina
“O uso do cachimbo é que faz a boca torta.”
A mesma rotina, as mesmas pessoas e…
No supermercado, ninguém sabe das dores de ninguém e, se alguém partilha alegrias, todos passam a sentir antipatia.
Na feira, os feirantes gritam que a oferta só vale naquele momento: ou você aproveita ou perde. Mas não demora para que prolonguem a promoção. Nada de diferente.
Depois, as barracas são desmontadas e o lixo fica para os cachorros de rua, os pombos e as ratazanas. Cada ser com a sua luta pela sobrevivência.
Longe dali, já perto de casa e longe do descanso, vejo o Sol bater em retirada, lançando seus últimos raios na vidraça embaçada do meu escritório bagunçado. No canto da porta, na teia, o mosquito já não se debate. E amanhã, de novo, tudo outra vez. Mas ninguém quer morrer, não é mesmo?
Certa vez, vi um filme interessante chamado God Is Dead (Deus está morto), que apresentava alguns dilemas que enfrentamos enquanto respiramos automaticamente nesta terra. O filme afirmava que, quando estamos diante da morte, todas as pessoas, incluindo até mesmo os ateus, clamam por Deus. Pedem perdão e misericórdia.
Mas talvez as pessoas não clamem por Deus, mas pela vida que ainda desejam viver. Clamam por mais uma oportunidade, mais um abraço, só mais um olhar ou, pelo menos, mais um instante. A alma recusa a finitude e, por isso, clamamos por misericórdia; por isso, prometemos ser melhores se formos agraciados com uma nova chance. Tudo isto porque queremos continuar aqui.
Com o passar dos anos, esta observação levou-me a concluir que Deus é a própria vida. A vida não é um presente d’Ele — ela é Deus.
Nesta perspetiva, Deus não é uma entidade exterior à vida, que a concede aos seres e depois os abandona à morte. Deus é a própria existência, presente em todos os lugares e em todos os seres, ao mesmo tempo. Conhece todas as coisas e todas as nossas necessidades. É Ele quem dá o primeiro inspirar e acolhe o último expirar.
Quando um ser morre e o sopro da vida deixa o corpo, a matéria permanece, mas já não vive. Está sem vida e, segundo a tese que proponho, está sem Deus. Não significa que Deus tenha deixado de existir, mas que a vida, tal como se manifestava naquele ser, cessou.
A morte de cada um de nós não é, portanto, a morte da vida. Somos passageiros; a vida é eterna. A existência individual tem um fim, mas Deus, enquanto vida, não morre com cada ser que deixa de viver.
Talvez seja por isso que, diante da morte, imploramos por mais tempo. Não queremos necessariamente compreender Deus naquele instante; queremos continuar a abraçar, a olhar, a sentir, a experimentar. Queremos mais uma oportunidade para fazer diferente, para reparar o que ficou por reparar, para dizer o que não dissemos. Prometemos ser melhores porque, de repente, percebemos que podemos perder aquilo que julgávamos garantido.
E, no entanto, a vida continua. O Sol voltará a romper a escuridão, o vento continuará a sussurrar e a aranha voltará a alimentar-se. Nós, se tivermos essa oportunidade, também voltaremos às nossas rotinas, às nossas contradições e aos nossos dias comuns.
A vida não precisa de ser perfeita para que queiramos continuar a vivê-la. Mesmo quando a consideramos ruim, mesmo quando estamos cansados e moribundos, ainda assim — desejamos mais um instante de vida.
Talvez porque, sem o sabermos, aquilo que tanto pedimos para não perder seja precisamente aquilo que considero divino: a própria VIDA.
E amanhã, de novo.
Mas, por ora, quero um café. ☕
—
Dan Dronacharya


