Dan Dronacharya escritora do livro Entre Mundos e Almas descalça segurando um caderno e caneta

Entre Vírgulas e Travessões, A Vilã de Histórias Boazinhas 

“Suas certezas serão os maiores obstáculos na sua estrada.”

As perguntas sempre foram censuradas, ora as perguntas são tolas, ora elas são estúpidas ou consideradas perguntas capciosas. Perguntar não é permitido em terras onde reinam os regimes autoritários. As interrogações os ofendem e quem faz a pergunta é sempre o mesmo que é acusado de gostar de confusão, eles ensinam as crianças a não questionarem. 

Lá não se pode perguntar por quê, porque o porquê não tem porquê e pronto, e o mais “por quê” é teimosia, irreverência e insubordinação digna de surra e castigo. O discurso era sempre o mesmo. O pai da dúvida é o Diabo e nenhuma criança quer ser filha dele. 

Tenho poucas lembranças, sinto que minha mente se recusa a lembrar de algumas coisas, sempre fico com a sensação de que perdi algo, alguma cena ou palavra, sabe? 

Pois bem, existe um fato, ou talvez apenas os fragmentos dele, de que me recordo bem. 

Quem é o seu super-herói? 

Quando era criança, há muitos milênios, quando eu ainda vivia lá no fundo do Reino onde só vivem os seres de moral duvidosa, alegria mentirosa, com mente dualista e desonesta, nesta época passava um desenho nos telões das galáxias ilusórias do Reino todas as crianças assistiam e queriam imitar os seus super-heróis. Erámos fascinados pelos desenhos. Largávamos as bonecas confeccionadas com gravetos, parávamos de jogar pedrinhas. Ninguém mais queria fazer mandalas e pentagramas. Queríamos ver os telões da Galáxia Ilusória e até quem não tinha acesso dava um jeito de ver.

Salvo erro, o nome do desenho em questão, era “o Batman e o Robin”, mas eu não tenho certeza. Só digo isto porque, quando falo de quem gosto nesta historinha, as pessoas dizem-me que gosto do vilão. Eu demorei para desatar este nó. Na minha mente ainda infantil e decepcionada por ser diferente, uma interrogação pulava como no quadro do Charada, perguntava-me o tempo todo: “como assim, eu gosto do vilão?” Entendi o porquê, mas curiosa não deixei de ser. Eu não queria ser a filha do Diabo. Hoje vejo que mudei pouco; aceitar-me foi a maior mudança que fiz. Acreditar em mim mais do que nos outros foi a melhor mudança, e apertar o foda-se, ah! Esta foi a mudança mais libertadora. 

Com o tempo aferi as coisas da minha cabeça de criança e continuo achando que todo herói também é vilão, simplesmente porque o bem não é partilhado por todos. O BEM é relativo — o que é bom para mim pode não ser bom para você. Ninguém pode tirar de você o seu direito de decidir. 

Isto é como o ÓBVIO, uma outra cilada, bebê, a regrinha é básica! Porque o que é claro para mim pode não ser para você. 

Portanto, esses recursos coercitivos são nada mais do que uma forma “social” estúpida e maldosa. O “ÓBVIO” é uma ferramenta de humilhação social, um cala a boca antecipado. Uma forma escrota de quem usa o saber para intimidar em vez de acolher. 

Mas, no Reino da imoralidade, ela é considerada como uma forma culta de cortar, humilhar e constranger as pessoas que almejam saber sobre o conhecimento de quem usa o recurso do ÓBVIO garante ter. Responder alguém com “isto é ÓBVIO” é uma forma de coerção do pensamento, um jeito elegante de impor que todos sigam o que todos seguem, porque todos devem ser iguais, mesmo sendo totalmente diferentes; todos devem seguir mesmo não entendendo nada. Só vai, sabe? Tal qual uma madeira na torrente — para onde a correnteza for, você também vai. 

De novo, perguntar não é opção numa terra de opressão. 

O meu personagem favorito era o Charada. 

Todas as vezes que entrava o bloco dele, havia um monte de interrogações. O mundo dele era o mundo das perguntas. 

Entendo hoje que ele fazia, de fato, algumas perguntas capciosas, mas o que é a capciosidade diante da honestidade de um ser? 

Por que eu deveria gostar de um mimado? 

O Batman é um homem disfuncional socialmente, um adulto sem mulher, sem filhos e sem família. Um homem rico, que vive cercado de mimos e tecnologias de ponta, com um mordomo limpando o chão que ele pisa, fazendo todas as suas vontades e com um lenço pronto para secar o seu suor. 

Fala sério, qual o heroísmo neste personagem? 

Nem as adversidades da vida ele teve que enfrentar, não! 

Eu prefiro parafrasear os rebeldes de minha época, que afirmavam sem medo de serem felizes que os “seus ídolos morreram de overdose”. 

Eu sou do lado das perguntas. 

Sou a favor de um mundo lúdico, informativo e claro. Quando perguntam-me se eu quero que desenhe, eu digo SIM. Adoro a ludicidade. 

Gosto muito das interrogações, bastante das reticências, eu sou apaixonada por travessões no meio do texto e gosto pouco, pouquíssimo, de pontos finais e exclamações. 

Sou mais do universo das vírgulas, das pausas sem sentido e sem obrigações de que tenho que descansar. Mas nada me encanta mais do que as consequências das minhas atitudes, porque só assim para eu conseguir dançar com a verdadeira liberdade. 

Ser livre é importante para mim. 

Aprecio, com mais prazer, os ouvidos que sabem escutar sem ser para responder. Gosto dos abraços despretensiosos, do cheiro dos meus filhos e dos beijos de quem me ama. 

E gosto de perguntar (risos). 

Então… De que mundo você veio? 

As perguntas te incomodam? 

Deixe-me contar um segredo… 

Chega aqui pertinho. 

Mais perto. 

BOOM. 

Eu não tenho problema em ser a vilã. 

É o contrário. 

Eu adoro isto. 

Para mim, as personagens “boazinhas” é que são, de fato, perigosas. 

Entretanto, aqui, nesta história — 

a BRUXA sou eu. 

Só mais uma coisinha… 

Eu não tenho super-herói, nem ídolos, nem quem me proteja. 

Eu só tenho a mim. 

É, por isso que só falo de mim — eu não saberia como falar da essência de outro ser. 

Sigo descalça, sem armas, sem certezas, com muitas rupturas e perguntas. 

Sou a Curandeira d’Almas. 

Mas, por ora, vamos deixar o caldeirão esfriar. Agora acho que posso tomar um cafezinho. 

Você está servido? 

— 

Dan Dronacharya

Escritora brasileira radicada em Portugal, autora de Entre Mundos e Almas, investigadora da consciência humana, professora de Yoga, facilitadora de autotransformação e criadora do Método CEP.