Há momentos em que é preciso parar e observar o rumo das águas e talvez escolher outro curso. Não para controlá-las, mas para entender para onde estão nos levando. Seguir no automático cansa. Ser levado pela corrente dos outros, mais ainda.
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O RUMO DAS ÁGUAS

“Quem não se vigia, se entrega demasiadamente aos outros e prejudica as suas relações de amor.”

Escolher outro curso

Há momentos em que é preciso parar e observar o rumo das águas e talvez escolher outro curso. Não para controlá-las, mas para entender para onde estão nos levando. Seguir no automático cansa. Ser levado pela corrente dos outros, mais ainda.

Durante muito tempo, permitimos invasões disfarçadas de cuidado, opiniões travestidas de autoridade, exigências apresentadas como verdades absolutas. Aos poucos, vamos cedendo espaço — e quando percebemos, já não sabemos onde começa a nossa vontade e onde termina a do outro.

Recuperar a alma passa por reconhecer esse ponto exato em que deixamos de nos escutar. Não é um rompimento brusco, nem um ato heroico. É um desgaste silencioso. Um cansaço que não se resolve com descanso, porque não é físico. É existencial.

Há pessoas que falam alto, ocupam tudo, determinam ritmos e esperam obediência. E há quem, por sensibilidade ou exaustão, aceita. Até o dia em que o corpo trava, a paciência acaba e algo interno pede basta.

Perceber o rumo das águas é um exercício de lucidez. É entender que nem toda corrente merece ser seguida. Que firmeza não é agressividade e que dizer não não é falta de amor — é preservação.

Recuperar a alma exige distância. Exige silêncio. Exige sair da arena onde sempre se precisa justificar, explicar, argumentar. A alma não se recupera em confronto constante. Ela se recompõe quando há espaço para respirar.

Há um preço em continuar onde não se cabe mais. E há um custo em mudar de direção. Mas, em algum ponto, permanecer dói mais do que partir. E seguir no fluxo errado cobra mais do que nadar contra a corrente.

A alma não se perde de uma vez. Ela se desgasta aos poucos. Recuperá-la é um gesto íntimo, firme e, muitas vezes, solitário. É escolher não ser arrastado. É decidir por si. É respeitar o próprio limite sem pedir permissão.

Quando percebemos o rumo das águas e escolhemos outro curso, algo se reorganiza. Não porque tudo se resolve, mas porque voltamos a habitar a nós mesmos. E isso, por si só, já é um retorno.

Gratidão.

Dan Dronacharya.