O TEMPO, A CONFIANÇA, A HONRA, A HONESTIDADE, A FIDELIDADE E A SABEDORIA — estes produtos raros não ficam expostos nas vitrines da frente e nem nas prateleiras das novidades. Ficam engavetados numa pilha de coisas velhas e com pouca saída, lá no fundo da loja, perto do almoxarifado, junto com os artigos que são ponta de estoque. Há quem saia de lá reclamando dos preços e murmure alto que a Vida está muito cara.

Lojinha da Vida: O mercado das pequenas escolhas existenciais

“Todas as coisas lhe são lícitas, mas nem todas lhe convém”. 1Corintios 10.23

Entre e leve o que você quiser da lojinha da Vida …

A espiral do atropelo diário

O despertador toca e a correria começa: a roupa separada para o dia sumiu de vista, os dois minutos a mais na cama são denunciados nos cabelos molhados e na roupa amarrotada. Mas isso não é nada, porque pela milésima vez você diz a si mesmo que não liga para a opinião alheia. Toma o seu café correndo, sem sentir o gosto, com um pé escorando a porta de saída, a bolsa caindo do ombro e a mão cheia de pastas e livros.

Entra e sai do carro, esquece de pagar o estacionamento, atrasa-se para a reunião, frustra os filhos com o seu cansaço exacerbado, sente-se mal perante os colegas, lembra-se de que esqueceu de estender a roupa, também esqueceu de ligar para a mãe e ainda pensa que já não faz amor, que não sente mais prazer. Passa o tempo que tem de vida a dizer que a Vida é uma droga.

Mas, vem cá,

No meio deste Deus nos acuda, quem é que consegue perceber por onde andam as suas riquezas, não é mesmo?

E se eu disser que o que acontece é que você está pagando caro, muito caro para ter as sobras da vida?

O livre-arbítrio e o mercado das ilusões

Sabe onde fica a lojinha da Vida, não sabe? Claro que sabe. Você certamente já frequentou, ainda frequenta, e ainda é um cliente assíduo da lojinha da Vida; quem não o é? O que você talvez não saiba é quanto tem pagado pelos artigos da loja. Na verdade, esse negócio de livre-arbítrio confunde um pouco o ser humano, sabe? É que eles ainda não são tão bons em caminhar sozinhos. Vivem no olho do furacão e quase sempre pagam preço de ouro em latão.

Mas, você certamente sabe o preço dos artigos, não é mesmo? Não me diga que você é como a maioria dos frequentadores, aqueles que chegam sempre esbaforidos e com urgências, geralmente pagando o preço que for para ter os produtos mais banais da loja. A maioria dos consumidores da Vida é assim.

Todos os produtos vendidos neste estabelecimento são valorosos; entretanto, existem alguns artigos que são mais sofisticados, mais nobres e raros e, assim sendo, também devem ser mais caros. Nada de novo até aqui: aquilo que é mais custoso é mais caro. Esta regra também vale para o que é gostoso e até para aquilo que nos é danoso, e os preços geralmente variam com a oscilação do mercado; mas nunca houve falta de produtos: as prateleiras repõem as mercadorias instantaneamente.

Fato é que você encontra o que quiser na lojinha da Vida. Você é livre para escolher entre os infinitos produtos — e, como nas lojas do dinheiro mundano, existem os produtos que se destacam, os que estão em promoção e os caros.

A vitrine das máscaras e das pequenas covardias

O interessante, entretanto, é perceber que os artigos mais valorosos não são os mais caros e, ainda assim, não são os mais vendidos.

Os artigos como Confiança, Inteligência, Bondade, Honra e Sensatez não surgem na terra como mato — são artigos valorosos segundo as mesmas pessoas que os dispensam e compram aqueles artigos de vitrine que são “baratos”, que atendem só às neuroses e com o tempo custarão uma fortuna para sua saúde. No folheto distribuído entre a população informam que os produtos que mais vendem são:

Dar um jeitinho em vez de ser sincero;

Mentirinhas do bem, muito usadas no lugar de um pedido de desculpas e que resolvem a situação de imediato;

Falsos sorrisos para impressionar — são muito baratinhos e disfarçam bem a sua depressão;

O sofisticado “foi só desta vez” — é muito usado por todos que têm por hábito trair. Este produto está sempre entre os mais vendidos. Quem usa garante que funciona mesmo;

A pose de santo e moralista — vixe! Vende igual pão, todos querem posar de corretos e virtuosos, enquanto ninguém o é de fato. Não sei o que eles têm contra as bruxas, desconheço totalmente isto (risos).

Os artigos da vitrine são especificamente aqueles que nos dão respostas imediatas — tipo as balas e chocolates nas gôndolas rente aos caixas. Eles não parecerão caros. Na verdade, são como os sorrisos falsos, mas eles são viciantes e acabarão se tornando caríssimos e ainda pesarão na balança.

E, por falar em custos,

Bem! Isto ainda é um mistério que na verdade não tem segredo algum.

A contabilidade mística

Os pagamentos para a lojinha da Vida não são feitos na loja. A sua compra é contabilizada automaticamente pelos duendes que trabalham incessantemente no setor de faturamento.

Nesta loja, não aceitam cartões de nenhuma bandeira, não recebem o dinheiro mundano e nem permutas eles fazem por lá. A moeda de troca deles é outra, com diferentes valores, e não sai exatamente do seu suor (seu trabalho). Embora sejam os trabalhadores humildes os que possuem mais possibilidades de possuir a moeda deles. Deve ser por isso que é comum ver algumas pessoas com muito dinheiro mundano e com pouca ou nenhuma riqueza de verdade.

É fácil distinguir os consumidores que se arrependeram por consumirem em demasia os produtos que o mundo lhes ditava como importantes. Esses consumidores são aqueles que investiram muito TEMPO tentando sair no jornal, alcançar satisfação profissional, e descartam muito facilmente os artigos mais raros da lojinha.

O TEMPO, A CONFIANÇA, A HONRA, A HONESTIDADE, A FIDELIDADE E A SABEDORIA — estes produtos raros não ficam expostos nas vitrines da frente e nem nas prateleiras das novidades. Ficam engavetados numa pilha de coisas velhas e com pouca saída, lá no fundo da loja, perto do almoxarifado, junto com os artigos que são ponta de estoque. Há quem saia de lá reclamando dos preços e murmure alto que a Vida está muito cara.

Porém todos os seres sabem os reais custos dos artigos da lojinha da Vida e também sabem do que realmente precisam da Vida. Quando os sonhos de criança trombam com o custo de ser construtor e o quanto é preciso renunciar, a maioria desanima, desiste e acaba por se distrair entre os produtos pensados exatamente para este fim.

Mas, quando a velhice chega ou quando estão enfermos, os humanos lamentam alguns pagamentos em excesso naquilo que mais prejudicou do que agregou em suas vidas. Queixam-se de terem perdido a oportunidade de colocar bons sentimentos, risadas sem sentido, amores proibidos e sabores inesquecíveis — reclamam por não terem colocado essas coisas boas na mochila.

A grande maioria lamenta pelo o tempo perdido — “devia ter feito isso”, Estudado aquilo e ficado mais nos braços de um certo alguém.

Mas, o que é o tempo?

Senão aquele que tem inveja do amor? Ele o inveja porque sabe que a todo instante ele passa; já o amor, não, não passa!

Os valores da Vida são outros e são cobrados de uma forma diferente. Os preços variam de pessoa para pessoa. Uma coisa é certa, meus camaradas: ninguém fica devendo, zero de inadimplência.

A gente pode partir com o saldo devedor, mas, a Vida não! A Vida seguirá plena.

O que fazer?

Torcer para a teoria do Buda ser verdadeira e tentar outra vez (risos).

Por ora, acho melhor deixarmos o caldeirão esfriar um pouco.

É, uma boa hora para aquele cafezinho que é prazeroso e nunca é caro na lojinha da vida. Está servido?

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Dan Dronacharya

Escritora brasileira radicada em Portugal, autora de Entre Mundos e Almas, investigadora da consciência humana, professora de Yoga, facilitadora de autotransformação e criadora do Método CEP.