A CHAVE DA IMPERMANÊNCIA
Caminhar além das lendas
“A vida é dinâmica e não tem nada de estática, e essa tal de estabilidade das coisas é só mais uma lenda, tudo que existe é impermanente.”
Os movimentos da vida revelaram-nos o quão interessantes são os nossos dias, saber viver é perceber que os nossos sentimentos mudam conforme os momentos vividos e entender que as más energias brotam da falta de reverência ao Divino é o primeiro passo para quem quer caminhar além das lendas.
Esses são pontos importantes que deveríamos ter sempre em mente. Isso nos faz uno (Yoga). Portanto, aquela lenda de que o Sol nascerá e brilhará entre os bons e os maus, independentemente do que você queira, parece que tem mesmo as suas razões de existir, pois não? Eu acredito que durante a nossa passagem por esta vida, teremos dias de Sol intenso em que os nossos corações se sentirão aquecidos e esses transbordarão de alegria, nesses dias de luzes radiantes, creio que somos mais belas do que toda a estação da primavera.
“Ciúme a gente tem do que é da gente, inveja a gente tem do que é dos outros”.
Essa frase mexeu comigo, bateu fundo! Como bem dizem os portugueses (risos). Acho que na altura eu estava em busca de dar nobreza ao sofrimento, queria explicar o meu aprisionamento e também não queria de forma alguma ser notada como tola. Ou seja, eu queria colocar lógica no sentimento do ciúme.
Yes! Eu queria explicar logicamente o caminho que uma pessoa trilha para chegar a ter ciúmes, eu achava que a pessoa tinha o “direito” de senti-lo. Vê se pode um negócio desse?
E o pior, é que eu até acho que consegui ver a lógica na mente do ciumento (na minha mente ciumenta). Depois de perceber o que nos leva a isso, deixei de sentir o danado. Bom demais!
Esse sentimento que muita gente confunde com falta de confiança no outro e blá, blá, blá, nada mais é do que falta de amor próprio. Só sente ciúmes quem não tem a si e por falta desse preenchimento nos entregamos muito facilmente nas mãos dos outros, nós temos em mente a crença latente de que somos menos e de que teremos que fazer por merecer o amor do príncipe encantado, e para além disso viveremos a disputar com todos e nunca seremos boas o suficiente e no fim da história você poderá ser trocada, é que neste tipo de relação o amor tem data de validade.
Que tolice! Que horror! As relações atuais mais parecem um filme de tortura e infelizmente é percetível que desenvolvemos um medo terrível de perder, mas perder quem ou o quê? O mais importante é você e nessa altura do campeonato, essa pessoa você já deixou para trás.
Calma, respire fundo e perceba a realidade, veja a impermanência das coisas, sinta a sua própria fluidez! Tenha paciência consigo, é lenda! O amor não cabe num papel A4.
Entenda que o ciúme, assim como o sentimento de posse, é fruto de um outro sentimento, o de inferioridade. Por nos sentirmos inferiores nos tornamos inseguros e ciumentos e sempre acharemos que estamos sendo excluídos de alguma coisa ou situação.
O medo de ser trocado, abandonado ou menosprezado é insuportável para a mente daquele que vê tudo como um palco de disputas.
Portanto, é um tanto quanto insano exigir que essa mente carente, insegura e com medo tenha confiança em alguém, não é mesmo?
Acredito que o amor tem as respostas e quando digo amor, eu falo do amor contigo, falo da relação íntima e gostosa com o seu ser. Não acho que isso possa ser de outro. Amor é algo sentido por si em si…
Foi buscando a lógica de se ter ciúmes que eu deixei de o ter, foi na luta para provar que eu era a melhor, a certa ou merecia ser a escolhida que tomei o golpe fatal e descobri que por amor não se luta, mas muito pelo contrário, por amor se entrega, se declara perdedor e se abstém da razão e da guerra.
Bendita seja a colocação do apostolo Paulo dos cristãos.
“o amor tudo tolera, tudo suporta, não enciúma e nem se enerva, não se envaidece e não se engrandece…”
Durante a minha saga eu percebi que o amor é feito água de poço e que essa ideia de se fazer digna de ser amada é só mais uma das muitas lendas que os romancistas do século XIX inventaram para escravizar pessoas. Nessa onda a gente se abandona para nos fazermos dignas de sermos as escolhidas e assim perdemos a vida disputando com tudo e com todos. Garanto que não vale a pena!
Hoje, totalmente curada deste sentimento, posso afirmar-vos que as vezes as marcas dessas lutas internas apareceram na pele em formas de eczemas, só pra lembrar-nos de que um dia caímos nos contos.
Todas as ações deixam as suas marcas e lições, uma boa lição é saber que a ilusão não deve fazer parte da vida daqueles já que aceitaram as suas imperfeições. As lagrimas ainda caem, e hoje são lagrimas de arrependimento e não necessariamente dor. O arrepender nos faz crescer e ele pode trazer aí algum desconforto, mas isso está longe de ser dor.
Arrepender do que fizemos conosco nos ensinará a nos perdoar e a não cometer os mesmos erros, nos valorizaremos e nos amaremos intensamente e não vamos querer saber o que os outros fazem e nem vamos ter medo de sermos “trocadas”. Isso é libertador.
Quando estamos trilhando o caminho de volta, nós passamos a aceitar as coisas com mais facilidade, isso não nos deixa isentos ou blindados contra os sentimentos ruins, o que adquirimos com esse processo de retorno é a habilidade de lidar com problemas difíceis.
Com o avanço da caminhada, nos é possível perceber que tudo aquilo que nos enrijece e nos entristece também nos rouba de nós, portanto isso não deve ser aceito com mansidão e nem sem explicação.
O caminhante desta estrada de retorno tem os passos firmes, o coração brando e a mente calma, nesse estágio preferimos os diálogos amorosos, não gostamos de confusão e nos abstemos de discussão.
Portanto há amor, há compressão, certo? As vezes não! Compreender sem querer em nome do amor pode causar confusão, gerar discussões e agressões que se eternizam em palavras malditas e depois viram feridas que queimam e ardem mais dentro do que fora.
Se há amor, lá haverá de ter também muita audição, ombro, acolhimento e amizade e respeito, por isso nem sempre haverá concordância.
Relembre sempre que aquilo que nos enrijece e nos entristece, também possui a capacidade de nos roubar e sem você não haverá amor.
Que o pranava Omm esteja presente nos seus dias!
Gratidão.
Dan



P.S: Este é o meu artigo do mês de dezembro na revista Meer, confira lá…
https://www.meer.com/pt/75298-o-amor-proprio-como-chave-da-impermanencia