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REFLEXÕES A BEIRA DA LAREIRA

“As cinzas são o que todos se tornarão.”

Você já se pegou em frente a uma lareira ou fogão a lenha, contemplando o fogo e o tempo?

Ainda não chegou o inverno e, eu já tenho passado muito tempo perto da lareira, uma rotura no pé e sem falar em todos os outros malefícios que o frio traz-me, de qualquer forma,. Fato é, que o tratamento para aliviar as dores nos tendões, é por gelo e que o quente só confortaria, remos de conforto, porque gelo não é uma opção para mim. Tenho Raynauld.

Entretanto, a prosa de hoje não é sobre esses pormenores citados acima; o assunto de hoje é sobre o nosso mundo interior, os nossos mapas mentais e os nossos monstrinhos. A forma como expomos tudo isso pode nos atrapalhar ou até mesmo nos tirar o gozo da vida. A parte boa é que podemos dirigir o ônibus. Saber conduzir deixará a viagem um pouco mais leve e suave; os “pit stop” são extremamente importantes, tipo ficar diante do fogo, facilitar o próprio respirar, articular o espírito e dar aquela energizada em todo o ser.

Falaremos sobre como as imagens distorcidas podem nos ajudar a caminhar. Veja quais são os desenhos que se formam nas brasas. Perceba onde estava… Engraçado, os desenhos estavam nas brasas, mas para mim se pareciam com o fundo do mar. Era tal como um navio que foi afundado; tinha um lindo salão de festas, estilo século XIX, sabe? Lindo! Junto do degrau mais baixo da escada, a estatueta de uma donzela, e à sua frente estava o salão de festas da primeira classe. Tudo muito fino e organizado; as coisas só não eram mais belas do que a silhueta dela.

As coisas se misturavam e o feio se tornaria excêntrico. Logo no canto esquerdo, um tipo de ogro comandava o evento, figura enigmática, uma mistura de lagarto marinho que, de tão esquisito, estava bonito (risos). O cenário foi ficando cada vez mais envolvente. Fiquei um bom tempo a observar a doce donzela que, com o avançar do fogo, foi perdendo a bela silhueta e, para piorar a cena, ela não virou borboleta. Num piscar de olhos, ela se assemelhava a uma lesma saindo do casulo; eu levei um susto e quase dei um pulo!

Fiquei presa na imagem como peixe no anzol. Procurei pela princesa e encontrei um caracol :). Sorri por dentro! Entretanto, lá do seu canto, o ogro excêntrico permanecia intacto, pleno e soberano, com os seus dois buracos na face a soltar fumaças e labaredas como um dragão enfurecido com o vilão.

Penso que, vez ou outra, poderíamos permitir-nos, ainda que seja por poucos instantes, nos encantar por uma lareira escaldante. Ficar ali como quem não quer nada e viajar: andar por todo o lado sem sair do lugar e caminhar para além das montanhas alaranjadas do outono. Ou simplesmente deixar ir, não tentar impedir, deixar fluir e ver o que o fogo diz com os seus desenhos ardentes e envolventes — e assim sentir onde a sua mente verdadeiramente está.

Reza a lenda que cada um vê aquilo que lhe é comum. Isso significa que a nossa visão é influenciada, não é totalmente limpa; nós vemos aquilo que os véus permitem-nos ver. O Yoga aborda esse assunto, ensina-nos que devemos retirar os véus de Maya (ilusão) para podermos ver e apreciar a realidade.

Até a ciência se debruça sobre essa questão. Muitos estudos afirmam que as pessoas veem as coisas de formas diferentes dependendo da região em que vivem, devido às suas crenças culturais, religiosas e filosóficas. Vamos desenrolar esse novelo e tentar entender como funciona esse jogo dentro da mente humana😊.

O ambiente onde vivemos é um fator importante a ser considerado nas nossas visões. Portanto, o jogo funciona assim; se o lugar onde você vive é repleto de pornografia, traições. discussões e e desconfianças será natural que as suas visões sejam cenas de sexo com violência e palavrões em imagens distorcidas. é claro! Mas, se você for uma pessoa santa, não tem com o que se preocupar, você vive nos templos e mantem-se fiel aos mandamentos da sagrada instituição, é certo que verá alguns ou muitos anjinhos. No entanto, se isso tudo for fingimento e você é só um personagem a ludibriar pessoas, acho que alguns capetinhas apareceram para lhe perturbar a cabeça. Qual é a sua cota? Não, não precisa dar-me a resposta. 🙂 Relaxe, não tenha pressa!

Existe outra lenda que diz que enquanto houver vida também haverá esperança. Portanto, tenha paciência consigo e, quando puder, sente-se em frente ao fogo e deixe que ele revele quantos e quais são os monstros que perturbam a sua mente e por que isso ainda acontece. Deixe tudo vir abaixo e alivie-se do cansaço.

Posso oferecer um conselho? Livre-se das mágoas. Tente revisar as suas bagagens: sabe aquele orgulho ferido escondido no fundo da mochila? Jogue fora. Livre-se dos entulhos e dos personagens que você inventou. Reveja todos os seus itens e desapegue daquilo que o endurece, entristece e adoece. Jogue fora todo esse lixo.

Reavalie a carga, reabasteça a garrafa d’água, o vidro de poções e a lata de boas energias. Confira o peso; veja se ainda há dores. Refiro-me às dores da alma; para as dores físicas, tome remédios.

Às vezes é melhor deixar para lá e começar a oferecer flores, fazer as pazes consigo mesmo e, antes de dar as moedas ao gondoleiro, selar energeticamente o seu corpo por inteiro.

Sou curandeira de sangue e de raiz! Desde menina, a morte intriga-me, fascina-me. Sempre gostei de observar onde é que a pessoa dobra a espinha. Eu venho de uma família grande, tradicional e matriarcal, com benzedeiras, curandeiras, artesãs, parteiras, rezadeiras e guerreiras. Sou daquela época em que os velórios duravam três dias — dava tempo de chorar, de conversar tudo o que tinha para conversar e também dava para comer bastante.

Interessante, não?

Já acompanhei muitas rezas, muitos velórios e funerais e até já caí dentro de uma tumba.

Pude aferir as informações passadas pelos anciãos. Parece-me que o desespero do doente terminal começa pouco antes da chegada das Valquírias, minutos antes do último suspiro. Aquelas pessoas que são negativas, vingativas, egoístas, desonestas ou insensatas sofrem e lutam bastante nos últimos momentos da vida. Travam batalhas horrorosas com os demônios, e a mente fica demente, deixando transparecer o seu verdadeiro conteúdo.

Contudo, também parece-me que quando as pessoas são bondosas, positivas, amáveis e generosas, partem sem muitas complicações. Não ficam assustadas, não sofrem, mesmo que estejam com doenças terminais. O estado de aceitação parece fazer toda a diferença; essas pessoas levam o fim com boa disposição e muitas consolam aqueles que ficarão.

Nunca me esqueci deste conselho e nem do dia em que me foi dado. Nesta data, velávamos a minha amada avó. Numa outra ocasião, numa conversa cheia de tretas, espreitei a dona Persa com a dona Roseta. Elas falavam sobre os últimos dias da dona Víbora, uma senhora fuxiqueira aqui da aldeia.

Segundo ela, a dona Víbora estava com os braços amarrados com faixas para que parasse de se arranhar. Murmurava sobre lutas espirituais com seres ruins e apontava para a parede, perguntando se alguém mais via o que ela via. Não parecia alucinante.

Afirmava que lutava com espíritos e que eles não davam paz ao seu coração. Falava de celas, grades, correntes e fivelas. Continuou arrogante, nervosa e conflitante.

Em meio aos soluços, dona Persa narrava. Ela tem 801 anos; poucas vezes a vi tão fragilizada. Antes de se despedir, segurou no braço da dona Roseta e afirmou:

“O fim da vida não é fácil, e pouquíssimas são as pessoas que têm a sorte de morrerem sem dor, sofrimento ou fantasmas.”

Mentalmente, eu disse-lhe:
“Relaxa, dona Persa… As pessoas boas morrem rápido…”

Na altura, toda a vila das fadas soube do fim trágico da dona Víbora. Dizem que ainda hoje se ouve um tremor de terra bem onde foram depositadas as cinzas dela.

Isso não é um conto — mas depois eu conto!

Até lá, aprecie o conforto da lareira quente e permita que o Sol brilhe radiante dentro de si, mesmo que seja inverno. 😊

Gratidão,
Dan Dronacharya.

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